Uma vida nova na Suíça
Em 2010, aos 23 anos, Rui decidiu partir para a Suíça. Tinha ambições e vontade de construir a própria vida, mas a adaptação foi difícil: não tinha família no país e sentiu que o apoio que recebeu foi pouco. Ainda assim, diz ter orgulho no caminho que fez e no que conseguiu alcançar pelo próprio esforço.
A paixão pelas duas rodas começou com uma Casal. Rui recorda com emoção a primeira vez que andou sozinho e a sensação de liberdade que sentiu. Foi um momento que nunca esqueceu.
Aprender o que significa vestir um colete
Rui começou o seu percurso no mundo dos motoclubes por volta de 2014 ou 2015, nos Wild Condors MC, em Tavannes, no cantão de Berna. Percebeu rapidamente que fazer parte de um clube não era uma brincadeira. Aprendeu o valor do respeito e da lealdade, mas reconhece que ainda não compreendia por completo o significado da irmandade e da igualdade.
Vestir o colete pela primeira vez foi motivo de orgulho. Com o tempo, percebeu que o colete, por si só, não representa tudo: são o percurso, a união e os valores partilhados que lhe dão significado.
Mais tarde, integrou os Demónios de Payerne e conheceu Manuel Sobral, a quem reconhece um papel importante na sua aprendizagem. Foi nesse período que começou a compreender melhor o valor da irmandade, da igualdade, do respeito e da honra. Esse caminho ajudou-o a crescer e a perceber que era essa a vida que queria seguir.
Hoje, usar as suas cores é motivo de grande orgulho. Rui sente que a união e o apoio dos irmãos foram essenciais no seu percurso. O colete, diz, tornou-se a sua segunda pele.
Liderar também é estar presente
Para Rui, liderar não significa simplesmente dar ordens. Significa transmitir valores, crescer com os irmãos e estar disponível para ajudar. Acredita que há formas de falar e orientar sem mandar, e que um líder deve participar nas tarefas e apoiar o grupo.
Também fala das decisões difíceis que fazem parte da vida de um clube. Uma delas foi afastar-se de amigos e irmãos que, na sua opinião, deixaram de respeitar os valores e as regras do motoclube. Diz que perdeu grandes amizades e que essa decisão lhe causou mágoa.
Para ele, a irmandade não se vê apenas nos passeios. Está também nos gestos de apoio quando alguém atravessa uma fase complicada: telefonar, visitar, perguntar se está tudo bem e não deixar um irmão sozinho. Rui acredita que a lealdade tem de vir de cada pessoa e não pode ser negociada.
As memórias da estrada e o equilíbrio em família
Entre as experiências que guarda com carinho, destaca uma concentração que o marcou pela viagem, pela organização, pela festa e pelo acolhimento. Recorda também a morte de um amigo e um acidente que lhe deixou uma placa e parafusos no ombro e lhe deu um grande susto.
Com os anos, a forma de viver a mota mudou. Se antes procurava sobretudo a adrenalina das motos desportivas, hoje prefere aproveitar o momento, sentir o vento na cara e ouvir o motor da sua mota. Para Rui, cada mota teria uma história diferente para contar: com o tempo, as pessoas mudam e também mudam as suas prioridades.
A família é uma parte importante desse equilíbrio. Rui sabe que a mulher e os filhos se preocupam sempre que ele sai de mota e querem vê-lo regressar em segurança. Reconhece que a vida não pode ser só estrada e clube: também é preciso reservar tempo para atividades em família e respeitar os momentos de quem está ao nosso lado.
Os valores que quer ver transmitidos
Rui mostra preocupação com o que considera ser uma perda de valores no mundo dos motoclubes. Critica situações em que, na sua perspetiva, os clubes se tornam um negócio, surgem grupos dentro dos grupos e aparecem a falsidade, a falta de respeito e a competição entre associações.Defende que é importante aprender com quem tem mais experiência e transmitir aos mais novos os valores que recebeu: irmandade, igualdade, respeito e honra. Para ele, essa aprendizagem exige humildade, escuta e trabalho em conjunto.
Ao longo do seu percurso, Rui foi percebendo que o significado de vestir um colete está nos valores e na forma como os irmãos estão presentes uns para os outros. É essa ideia que resume aquilo que considera essencial numa irmandade: «A lealdade não se ensina a ninguém. Tem de vir da pessoa. Não é negociável.»


























































































