E há outros que deixam marcas nela.
Antes de ser presidente, antes de liderar um grupo, antes de vestir o colete, Jorge Lima é um homem feito de raízes, de viagens e de escolhas que moldaram o seu caminho.
Natural de Gouvães do Douro, no distrito de Vila Real, levou desde cedo no sangue o carácter firme das terras do Douro. Cresceu em Lisboa, onde começou a construir a sua identidade entre a vida urbana e os sonhos de liberdade.
Em 1990, com apenas 12 anos de idade, atravessou fronteiras e chegou à Suíça, trazendo consigo mais do que uma mala: trouxe a história, a saudade e a determinação de quem aprende cedo a recomeçar.
No mundo motard, o seu nome confunde-se com dedicação, persistência e sentido de pertença. Como presidente dos Motards Tartarugas, construiu mais do que um grupo: ajudou a criar uma família onde a amizade, o respeito e a lealdade são mais fortes do que o ruído dos motores.
A sua ligação ao movimento motard vai ainda mais longe. Jorge Lima fez parte da direção
da LUSOMOTARDS e, segundo a memória de muitos, esteve também na origem de um projeto que viria a unir motards portugueses na Suíça.
Hoje, convidamos-vos a conhecer não apenas o líder ou o motard, mas o homem por trás do guiador.
As conquistas, as dúvidas, os silêncios e as batalhas invisíveis que moldaram a sua história.
Porque algumas histórias não se contam apenas com palavras.
Sentem-se.
Vivem-se.
E merecem ser ouvidas.
Homem antes do colete
Lusomotards (LM) - Antes de seres presidente, líder ou motard conhecido, quem é realmente o Jorge Lima?
Jorge Lima (JL) - Sou uma pessoa como todas as outras, luto para alcançar os objetivos que desejo na vida. Acredito que todas as metas são possíveis de serem alcançadas. Sou uma pessoa que gosta e aceita brincadeiras, mas também sou séria. Considero-me uma pessoa correta.
LM - Quando é que percebeste que a moto não era apenas um hobby, mas um estilo de vida?
JL - Bem, acho que percebi isso alguns anos atrás, quando comecei a frequentar algumas concentrações de motards. Notei que motos não são apenas um hobby, mas podem ser muito mais.
LM - O que é que a estrada te deu… e o que é que te tirou?
JL - Andar na estrada de moto, acho que já me trouxe muitas coisas, pois não é a mesma coisa fazer uma estrada de moto ou de carro. De moto, vais livre, vês muitas mais coisas, pares onde pares és recebido de outra maneira. Parece que toda a gente te conhece há muito tempo, apesar de nunca te terem visto antes... Acho que, até ao dia de hoje, a única coisa que a estrada me tirou foi algumas horas de sono...
Motards Tartarugas - identidade e verdade
LM - Os Motards Tartarugas não nasceram por acaso. Conta-nos a verdade: como começou tudo?
JL - Os Motards Tartarugas nasceram depois de um passeio de moto. Éramos cerca de 13 amigos que, no dia 9 de setembro de 2007, depois de um lindo passeio de moto e já a caminho de regresso a Frauenfeld, em tom de brincadeira, decidimos formar os Motards Tartarugas.
LM - O nome “Tartarugas” representa o quê: humildade, resistência ou provocação?
JL - Bem, o nome 'Tartarugas' surgiu por acaso, depois de termos votado em diversos nomes para o moto clube. Para mim, e pelo que somos, ele representa humildade.
LM - Hoje, olhando para o grupo, dirias que os Motards Tartarugas estão fortes, frágeis ou em transformação?
JL - Uiii, custa-me muito dizer isto, mas atualmente estamos muito frágeis e sem alguma transformação.
LM - Sem rodeios: como está realmente o grupo Motards Tartarugas neste momento?
JL - Infelizmente, está tudo parado. É algo que em breve vamos ter de resolver: o que faremos no futuro, pois cada vez há menos pessoas dispostas a assumir responsabilidades e que tenham tempo para estar à frente dos Motards Tartarugas.
LM - Qual foi o momento mais difícil que enfrentaste como presidente?
JL - Sinceramente, não te sei dizer. Já houve algumas tentativas, mas eu sou uma pessoa que gosta de enfrentar momentos difíceis, eles dão-me garra para continuar e fazer melhor... Mas acho que, mesmo assim, o mais difícil tem sido ver os Motards Tartarugas parados e sem o interesse dos sócios.
LM - E o momento em que sentiste orgulho verdadeiro no grupo?
JL - Sinto orgulho, apesar do atual mau momento, ainda hoje. Mas, quando os Tartarugas ainda eram Tartarugas, e principalmente nas nossas concentrações, saber que podia contar com os nossos sócios para tudo o que fosse preciso, isso sim, dava-me orgulho.
Liderar não é mandar
LM - Liderar motards é diferente de liderar pessoas comuns. Concordas?
JL - Sim, até certo ponto concordo. Acho que as pessoas comuns são mais difíceis de liderar...
LM - Já tiveste de tomar decisões que te custaram amizades?
JL - Sim, infelizmente, algumas. É triste, mas é a realidade. Por outro lado, talvez não fosse amizade de verdade.
LM - O que é mais difícil: manter um grupo unido ou mantê-lo fiel aos seus valores?
JL - Manter a união, acho, é mais difícil, pois, se houver união, acredito que os valores serão cumpridos
LM - Se tivesses de definir o teu estilo de liderança numa palavra, qual seria?
JL - Nunca liderei os Motards Tartarugas sozinho, tudo o que fiz foi decidido entre mim e os meus colegas de equipa. Mas, sim, sempre tentei motivá-los e ajudá-los para que me acompanhassem no percurso dos Tartarugas.
LUSOMOTARDS – história e legado
LM - Fizeste parte da direção da LUSOMOTARDS. O que viste por dentro que poucos conhecem?
JL - Muita dedicação, muito tempo perdido pelas pessoas que passaram pela direção da Lusomotards, mas tudo isso não é relevante quando as coisas são levadas para frente.
LM - Se não estamos enganados, estiveste também na origem da LUSOMOTARDS. Como foi esse tempo de fundação?
JL - Sim e não... Quando entrei para a Lusomotards, ela já existia há 1 ou 2 anos. Não era a Lusomotards de hoje, mas o nome já estava lá. Apenas eu, juntamente com outros membros, fizemos com que existissem atas das reuniões, criamos certas regras, estatutos, etc. Acho que foi assim que demos mais vida à Lusomotards.
LM - Na tua opinião, a LUSOMOTARDS manteve o espírito original ou mudou com o tempo?
JL - Acho que o espírito melhorou, e espero que continue a mudar, logo que seja para melhor. Novas pessoas trazem novas ideias, mais energia, etc. Não podem ser sempre as mesmas, porque, a certa altura, ficamos cansados e, mesmo sem querer, não conseguimos dar nova vida...
LM - O que a LUSOMOTARDS representa hoje para ti: orgulho, responsabilidade ou nostalgia?JL - A Lusomotards, para mim, é um orgulho. Sinto-me até certo ponto orgulhoso por ter sido um dos responsáveis por transformar a Lusomotards no que é hoje. E sinto, atualmente, saudades de não ter tempo para conviver mais com o pessoal. Infelizmente, atualmente, não me é possível.
LM - Se tivesses de deixar uma mensagem à atual direção da LUSOMOTARDS, qual seria?
JL - Acreditem, levem as vossas ideias para a frente, sejam leais e responsáveis pelos cargos que têm...
Movimento motard - sem filtros
LM - Vamos ser diretos: o movimento motard português na Suíça está unido ou dividido?
JL - Eu penso que todos os motards, todos os clubes e até mesmo os simpatizantes da Lusomotards estão unidos, mas também sei que há motards e clubes que não fazem parte da Lusomotards, e esses, talvez, estejam mais divididos.
LM - O que é que mais te incomoda no mundo motard atual?
JL - Haver certas regras que impedem outros clubes de fazer ou até mesmo de vestir certas coisas.
LM - E o que ainda te faz acreditar neste movimento?
JL - É uma grande família, por isso temos sempre de acreditar...
LM - Achas que hoje há mais aparência do que essência no mundo motard?
JL - As duas coisas, e, por um lado, está bem assim. Pelo menos, não se torna chato ver sempre a mesma coisa...
LM - Se pudesses mudar uma coisa no movimento motard, qual seria?
JL - Bem, acho que, se eu tivesse esse poder, mudaria o tempo, pelo menos aqui na Suíça, trazendo mais sol do que chuva e neve.
Estrada, vida e verdade
LM - Há uma viagem, uma queda ou um momento na estrada que te tenha mudado como homem?JL - Acho que qualquer viagem, qualquer susto e qualquer momento nos mudam de alguma forma. Com todos os quilómetros que fazemos, com alguns sustos que apanhamos e com todos os momentos que passamos juntos, acho que nos mudam, mesmo às vezes sem nos darmos conta.
LM - A estrada ensinou-te mais sobre lealdade ou sobre solidão?
JL - Um pouco das duas coisas.
LM - Quando desligas a moto, o Jorge Lima continua a ser o mesmo?
JL - Na moto, desligo de quase tudo e concentro-me apenas na estrada, na moto, etc. Quando desligo a moto, as coisas do dia a dia voltam à cabeça... Mas acho que isso faz parte, e acredito também que não sou o único a sentir assim.
Mensagem final
LM - Que mensagem deixas aos Motards Tartarugas?
JL - Gostava que não deixassem morrer o que foi construído, gostava que os sócios se chegassem mais à frente...
LM - E aos motards portugueses na Suíça?
JL - Não apenas aos motards na Suíça, mas sim a todos os motards. Desejo muitos quilómetros cheios de saúde e muitos momentos de alegria.
LM - Completa a frase: “Ser motard não é…”
JL - Não é saber andar de moto ou se armar em piloto de MotoGP, mas sim saber respeitar a estrada e quem nela vai, é saber aproveitar o momento, saber conviver e respeitar os outros.
Ao longo desta conversa, percebemos que a história de Jorge Lima não se resume a cargos, títulos ou funções. É, acima de tudo, a história de um homem que cresceu entre raízes durienses, viveu a mudança ainda jovem e encontrou na estrada uma forma de pertença.
Da infância em Gouvães do Douro, passando por Lisboa, até à chegada à Suíça com apenas 12 anos, o seu percurso é feito de adaptação, coragem e construção silenciosa. Como tantos emigrantes portugueses, aprendeu cedo a recomeçar sem perder a identidade.
Enquanto presidente dos Motards Tartarugas e antigo membro da direção da LUSOMOTARDS, Jorge Lima demonstrou que liderar não é estar à frente, mas estar presente. Presente nos momentos difíceis, nas decisões exigentes, nas conquistas partilhadas e nos quilómetros percorridos lado a lado.
Nesta entrevista, não ouvimos apenas um dirigente associativo. Ouvimos um homem que valoriza a amizade, a lealdade e o respeito, princípios que dão verdadeiro significado ao mundo motard.
Porque no fim, o que fica não são apenas as motos, os encontros ou as fotografias.
Ficam as pessoas.
Ficam os gestos.
Fica a memória.
A LUSOMOTARDS agradece a Jorge Lima por ter partilhado o seu percurso e por continuar a contribuir para a força e identidade da comunidade motard portuguesa na Suíça.
A estrada continua. E cada história contada reforça o caminho que fazemos juntos.
Entrevistador:
JM
Rubrica “Um Motard, Uma História” – LUSOMOTARDS































