sábado, 7 de março de 2026

ENTREVISTA DO MÊS – “Um Motard, Uma História”

 Das montanhas de Manteigas às estradas da Suíça, a história de um motard que viveu a irmandade desde o início.

Há histórias que começam com o som de um motor.

Mas há outras que começam muito antes disso…
Começam na vida.

Esta é a história de Rui Serra.

Um homem nascido no coração da Serra da Estrela, na vila de Manteigas, onde o silêncio das montanhas e a força da natureza moldam o carácter de quem ali cresce. Foi ali que começou o seu caminho, muito antes de existir qualquer mota, qualquer grupo ou qualquer estrada percorrida a milhares de quilómetros da sua terra.

A vida levou-o mais longe.

Da infância nas montanhas de Portugal às estradas da Suíça, Rui Serra acabaria por encontrar no mundo motard algo que muitos procuram durante uma vida inteira: irmandade, liberdade e identidade.

Foi entre motores ligados, encontros improvisados e noites à volta de fogueiras que nasceram amizades, grupos e ideias que marcariam uma geração de motards portugueses emigrados.

Entre essas histórias está também o Red Line, um grupo que ajudou a construir com dedicação e paixão.
E está igualmente o nascimento de algo maior os LUSOMOTARDS, uma união que surgiu da vontade de juntar motards portugueses espalhados pela Suíça.

Mas esta não é apenas uma história de motas.

É uma história de amizade, lealdade, escolhas de vida e respeito pela estrada.

Hoje, com a serenidade de quem já percorreu muitos quilómetros, Rui Serra olha para trás com orgulho, saudade e a certeza de que aquilo que se viveu no verdadeiro espírito motard fica para sempre marcado no coração e na memória da estrada.

Porque no final de tudo, como ele próprio diz:

“Ser motard é respeito… e saber respeitar.”

Lusomotards (LM) - Rui começa por nos falar um pouco de ti. Quem é o homem antes da estrada?

Rui Serra (RS) - Sou Rui Serra, nasci a 26 de junho de 1971 na linda vila de Manteigas, situada no coração da Serra da Estrela. Nasci dentro de uma família muito feliz. Aos 6 anos entrei para a escola da Senhora dos Verdes, onde fiz a 4ª classe. Depois segui para o ciclo e mais tarde para o Colégio Nossa Senhora de Fátima, onde completei os estudos até ao secundário. Aos 20 anos fiz a tropa em Évora durante dois anos. Mais tarde regressei à minha terra e concorri para a GNR. Cheguei a passar nas provas, mas acabei por não seguir esse caminho porque teria de me deslocar para longe e estava prestes a nascer o meu primeiro filho. Foi uma decisão de vida.

LS - Como nasceu a tua ligação às motas?
RS - Um dia, quase por acaso, fui com um amigo até ao Fundão. Visitámos uma garagem da Honda que vendia motas. Eu praticamente não tinha noção nenhuma do mundo das motas… mas quando vi uma CB500 verde militar, foi amor à primeira vista. Comprei-a na hora. Mais tarde tive uma Transalp 600, e aí comecei a perceber que a mota não era apenas um hobby começava a fazer parte de mim.

LM - Quando chegaste à Suíça e como entraste no mundo dos grupos motards?
RS - Foi já na Suíça que tudo ganhou outra dimensão. Comprei uma R1 e comecei a conhecer vários grupos motards. Passei a participar nos eventos e encontros que organizavam. No início éramos poucos, mas já estávamos espalhados pela Suíça em zonas como Zug, Romanshorn e SchaffhausenAos poucos o movimento foi crescendo… até que em 2003 acabámos por formar os LUSOMOTARDS na SuíçaNessa altura eu já tinha o meu pequeno grupo: o Red Line.

LM - Como nasceu a ideia dos LUSOMOTARDS?
RS
A ideia nasceu da forma mais pura que existe no mundo motard: à volta de uma fogueiraEstávamos ali reunidos, a conversar, a trocar ideias… e começámos a falar sobre a necessidade de união entre motards portugueses. Assim nasceu a ideia dos LUSOMOTARDSA motivação cresceu muito em mim, principalmente pela vontade de conhecer mais irmãos motards e fortalecer a união entre todos. No início não foi fácil. Havia muitas ideias diferentes e não era possível concretizar todas. Mas conseguimos algo muito importante: organizar datas de eventos e criar estrutura. E isso já era uma grande vitória.


LM
- O Red Line também fez parte importante da tua história. Como nasceu esse grupo?
RS - O Red Line nasceu em 2003, em Bad Ragaz, através de alguns motards com quem já rodávamos aqui na zona. Para mim, o Red Line era muito mais do que um grupo. Era uma verdadeira aventura que eu estava a criar com alguns amigos. Eu vivia o grupo. Os fins de semana eram praticamente todos dedicados ao Red Line. Fui fundador e ocupei sempre o lugar de presidente, embora tivesse sempre deixado a porta aberta para que outro motard do grupo pudesse assumir o lugar se assim desejasse. Mas acabou por nunca acontecer.

LM - Como foram os primeiros eventos e concentrações organizados pelo Red Line?
RS - No início, fazer uma concentração motard ainda era novidade para muitos portugueses. Havia sempre aquele receio… Mas eu tinha uma certeza dentro de mim: os nossos irmãos motards iam aparecerE assim aconteceu. Sempre que organizávamos algo, os motards apareciam e apoiavam. A todos eles deixo aqui o meu agradecimento. O Red Line chegou a ter cerca de 50 sócios, mas com o passar do tempo muitos motards seguiram outros caminhos: juntaram-se a outros grupos ou criaram novos. E assim o Red Line acabou por se ir perdendo. Para
mim isso foi natural. 
Somos todos livres.


LM
- O teu afastamento do meio motard teve alguma razão especial?
RS - Não houve qualquer problema. Foi apenas um afastamento natural devido à vida privadaMas dentro de mim continuo a sentir-me parte disto tudo. Mesmo sem o Red Line ativo, continuo ligado ao espírito motard.

LM - Quando olhas para trás, o que sentes ao recordar esse percurso?
RS - Sinto saudades… mas acima de tudo muito orgulhoOrgulho de todos os motards com quem convivi e também daqueles que, mesmo sem conhecer muito bem, fizeram parte deste caminho. Para mim, a amizade no mundo motard não se compra nem se vende vive-seAprendi muito com todos. Aprendi sobretudo o respeito e a lealdade.

LM - O que é que a estrada te ensinou?
RS - A estrada ensinou-me muito. Ensinou-me a respeitá-la, porque é ela que leva as nossas alegrias a todo o lado. Aprendi que a estrada também merece respeito. Para mim, a estrada significa liberdadeLive to Ride, Ride to Live.

LM - Existe vontade de regressar mais ativamente ao mundo motard?
RS - Voltar como antes… provavelmente não. Mas participarei com todo o gosto em alguns eventos que venham a organizar. Porque isto nunca desaparece completamente de dentro de nós.

LM  - Que mensagem deixas aos jovens motards?
RSNós vivíamos tudo isto com uma enorme satisfação. Era algo muito puro. Aos jovens motards deixo um conselho simples: tenham o máximo cuidado ao andar de mota. E deixo também um pensamento para aqueles nossos amigos motards que infelizmente já partiram.

LM - Para terminar, o que significa para ti ser motard?
RS - Ser motard é algo simples, mas profundo: 
Ser motard é respeito… e saber respeitar.


Há homens que passam pelo mundo motard. E há homens que ajudam a construir esse mundo.

Rui Serra pertence a essa geração que viveu o motociclismo não como moda, nem como estatuto, mas como forma de vida. Uma geração que se encontrou nas estradas da Suíça, longe da terra natal, mas unida pelo mesmo som de motores, pelo mesmo espírito de irmandade e pela mesma paixão pela liberdade.

Entre fogueiras acesas nas noites frias, quilómetros partilhados e sonhos discutidos entre amigos, nasceram ideias que acabariam por marcar uma comunidade inteira.

Uma dessas ideias foi a criação dos LUSOMOTARDS.

Outra foi o espírito que deu vida ao Red Line, um grupo criado com amizade, dedicação e a vontade de juntar motards em torno de algo maior do que apenas andar de mota.

O tempo passa.
Os caminhos mudam.
Alguns grupos desaparecem.
Outros transformam-se.

Mas aquilo que realmente importa fica para sempre gravado na estrada e na memória de quem viveu esses momentos.

Rui Serra pode hoje estar mais afastado da estrada como antes a vivia, mas a sua história continua a fazer parte das raízes desta irmandade.

Porque no mundo motard há algo que o tempo nunca apaga:

o respeito por quem ajudou a abrir caminho.

E como ele próprio nos recorda, com a simplicidade de quem viveu tudo isto de forma verdadeira:

Ser motard não é uma aparência.

É uma forma de estar.

É uma forma de viver.

E acima de tudo…
é uma forma de respeitar.

Entrevistador:
JM
Rubrica “Um Motard, Uma História” – LUSOMOTARDS


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