domingo, 19 de abril de 2026

ENTREVISTA DO MÊS – “Um Motard, Uma História”

Natural de Lamego, Nuno Ferreira chegou à Suíça em agosto de 2004, como tantos outros portugueses que partiram em busca de melhores condições de vida.

Muito antes de qualquer cargo, de qualquer patch ou de qualquer nome nas costas, existia já um homem com um percurso feito de trabalho, rotinas, decisões e sonhos guardados em silêncio.

Foi apenas anos mais tarde que a mota entrou na sua vida — e com ela, uma nova forma de viver, sentir e olhar a estrada.

Hoje, a LUSOMOTARDS senta-se à conversa com este homem, que é também presidente do Grupo Motard Os Tugas.

Mas esta não é apenas uma conversa sobre um grupo.

É, acima de tudo, uma conversa sobre o homem que veste o colete.

O Homem

LUSOMOTARD (LM) - Se hoje não fosses motard, quem seria o Nuno?
Nuno Ferreira (NF) - Seria apenas mais um emigrante preso a uma rotina monótona de casa–trabalho, trabalho–casa, sem grandes momentos de evasão ou liberdade pessoal.

LM - Lembras-te do dia em que percebeste que as motas iam fazer parte da tua vida?
NF - Sim. Foi no dia em que comprei a minha mota, em 2012. A partir desse momento percebi que não era apenas uma compra, mas o início de algo que iria fazer parte da minha vida.

LM - O que sentes nos primeiros minutos de cada saída de mota?
NF - Uma sensação imediata de liberdade, como se tudo o resto ficasse para trás naquele instante.


LM - Preferes andar sozinho para pensar ou em grupo para viver o momento?
NF - Gosto das duas experiências. Sozinho encontro espaço para pensar, em grupo encontro o espírito de partilha e convivência.

LM - O que a estrada já te ensinou que a vida normal nunca ensinaria?
NF - Ensinou-me a sentir uma liberdade e uma tranquilidade que dificilmente se encontram na rotina do dia a dia.

LM - Há algum episódio na estrada que te tenha marcado profundamente como pessoa?
NF - Mais do que um episódio específico, foi o companheirismo vivido com outros motards que mais me marcou ao longo do tempo

O Presidente

LM - Alguma vez imaginaste vir a ser presidente de um grupo motard?
NF - Não, nunca fez parte dos meus planos.

LM - O que mudou na tua forma de ver o mundo motard depois de assumires essa função?
NF - Na verdade, não mudou nada. Continuei a ser exatamente a mesma pessoa que sempre fui.

LM - Ser presidente tira mais do que dá, ou dá mais do que tira?
NF - Dá mais do que tira, principalmente a nível pessoal e humano.

LM - Há decisões que um presidente tem de tomar sozinho?
NF - Não. As decisões são sempre tomadas com base na opinião dos restantes membros do grupo


O Grupo e o Percurso

LM - Como gostas de descrever os Tugas a quem não os conhece?
NF - Como um grupo composto por pessoas educadas, bem-dispostas e que sabem conviver.

LM - Que tipo de pessoas sempre fizeram parte do grupo?
NF - Pessoas honestas, participativas e presentes na vida do grupo.

LM - Qual foi o momento em que sentiste maior orgulho no grupo?
NF - O orgulho esteve sempre presente ao longo do percurso, não num momento isolado.

LM - O que mais valorizas nas pessoas que passaram pelos Tugas?
NF - A honestidade acima de tudo.

A fase atual

LM - O grupo continua vivo, mas mais discreto. Como explicas esta fase?
NF - Vejo esta fase como um momento de reflexão ou simplesmente uma pausa natural.

LM - Esta fase trouxe alguma reflexão pessoal enquanto presidente?
NF - Trouxe um maior sentido de responsabilidade.

LM - Ainda sentes a mesma chama quando vestes o colete?
NF - Sempre. Esse sentimento nunca mudou.

A visão de quem já viveu muito na estrada

LM - O que distingue um grupo motard de um grupo de amigos com motas?
NF - Sinceramente, não vejo grande diferença entre as duas coisas.

LM - O que nunca pode faltar dentro de um grupo para ele se manter vivo?
NF - A honestidade entre todos.

LM - Se pudesses definir os Tugas numa palavra, qual seria?
NF - Irmandade.

LM - E se tivesses de definir o teu percurso como motard noutra palavra?
NF - Liberdade.

No fim desta conversa, fica claro que a verdadeira essência do mundo motard não está apenas nos grupos, nos nomes ou nos coletes.

Está nas pessoas.

Em homens como Nuno Ferreira, que encontraram na estrada mais do que um escape — encontraram um sentido, uma forma de viver e uma forma de estar.

O Grupo Motard Os Tugas pode hoje atravessar uma fase mais discreta, mas aquilo que o construiu continua intacto: valores, irmandade e autenticidade.

À LUSOMOTARDS, fica a honra desta partilha.
E ao Nuno, o nosso sincero agradecimento pela disponibilidade, pela honestidade e pela simplicidade com que abriu a porta da sua história.

Porque no final, os grupos podem atravessar fases…
mas o homem que descobriu a liberdade na estrada, esse nunca deixa de seguir caminho.

 Entrevistador:
JM
Rubrica “Um Motard, Uma História” – LUSOMOTARDS

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